São 3 da manhã. A casa está em um silêncio absoluto, mas dentro da sua cabeça, o barulho é ensurdecedor.
Você se vira na cama pela décima vez, sentindo aquele aperto físico no peito, um vazio cortante que parece impossível de preencher. O celular está ali do lado e, por uma fração de segundo, o impulso é ligar para ele.
Mas aí a realidade bate. A ficha cai de novo: ele não vai atender.
Nessa hora, a mente vira uma inimiga. Você começa a repassar cada “não” que disse, cada almoço de domingo que pulou por causa do trabalho, cada abraço que deixou para depois. O pensamento é cruel: “Eu devia ter aproveitado mais”
Se você sente que parte de você foi embora junto com ele e que o mundo perdeu a cor, saiba de uma coisa importante agora:
Você não está enlouquecendo. E, principalmente, você não está sozinho nessa dor.
Por que o luto pai dói tanto?
Quando perdemos uma figura de referência como um pai, o cérebro entra em um estado de “erro de processamento”.
Imagine que seu cérebro é um GPS que passou a vida inteira traçando rotas onde seu pai era um destino seguro, um ponto de apoio. De repente, esse ponto desaparece do mapa.
A neurociência explica que o luto não é apenas tristeza; é o cérebro tentando desesperadamente recalcular a rota da vida sem essa referência vital.
Esse processo gasta uma energia imensa. É por isso que você sente esse cansaço avassalador, mesmo sem ter corrido uma maratona. Não é “fraqueza” sua, é biologia pura.
Sinais de que o luto está travando sua vida
É muito comum recebermos no consultório pessoas que tentam “ser fortes”, mas o corpo acaba gritando. Fique atento se você está sentindo:
- Insônia persistente: O medo de dormir e sonhar, ou acordar no meio da noite com ansiedade.
- Irritabilidade explosiva: Perder a paciência com coisas pequenas (ou com quem tenta ajudar).
- Isolamento social: A sensação de que ninguém entende sua dor, então é melhor ficar quieto.
- Dores físicas sem causa: Dores nas costas, enxaqueca ou problemas gástricos constantes.
A armadilha de tentar ser “forte” sozinho
O nosso cérebro reptiliano (a parte mais primitiva, focada em sobrevivência) muitas vezes nos diz para esconder a dor para não parecermos vulneráveis.
Você talvez pense: “Preciso ser forte pela minha mãe” ou “Não posso chorar, tenho que trabalhar”.
Mas engolir o luto pai é como tentar segurar uma bola de praia embaixo d’água. Você faz uma força imensa para mantê-la submersa, mas uma hora os braços cansam e ela pula para fora com violência, espirrando água para todo lado.
Tentar resolver tudo sozinho apenas prolonga o sofrimento e adia o momento em que você poderá respirar aliviado novamente.
3 Passos para começar a aliviar o peso
Não existe fórmula mágica, e cada processo é único. Mas, baseados na Psicologia do Luto, existem caminhos para tornar essa estrada menos íngreme hoje:
- Acolha a “onda”, não lute contra ela O luto vem em ondas. Tem dias que o mar está calmo, tem dias de ressaca. Quando a tristeza vier, não se julgue. Dê a si mesmo permissão para não estar bem hoje. Aceitar a emoção faz ela passar mais rápido do que brigar com ela.
- Ressignifique a conexão A morte encerra a vida física, mas não o relacionamento. Escreva uma carta para ele, contando como foi seu dia ou aquela bobagem que aconteceu no trabalho. Manter um diálogo interno saudável ajuda a transformar a dor aguda em uma saudade mansa.
- Respeite sua biologia básica Parece óbvio, mas no luto esquecemos o básico. Tente comer em horários regulares e se expor à luz do sol pela manhã. Isso ajuda a regular os hormônios do estresse (cortisol) e melhora um pouco a qualidade do sono.
Você merece voltar a sorrir ao lembrar dele
O objetivo de tratar o luto não é esquecer o seu pai. Jamais.
O objetivo é chegar ao Ponto B: aquele momento em que você vai acordar leve, lembrar de uma piada que ele contava e rir, sentindo gratidão por ter vivido aquilo, e não mais o desespero de ter perdido.
É poder olhar para uma foto antiga e sentir o coração aquecido, e não dilacerado.
Fazer terapia é um ato de coragem para organizar essa bagunça interna. É ter um espaço seguro, sem julgamentos, para falar tudo o que ficou entalado na garganta e, aos poucos, se sentir inteiro de novo para encarar a vida.
Se o peso estiver grande demais para carregar sozinho, nós podemos ajudar a dividir essa carga.
Que tal agendar uma conversa inicial para entendermos como você está se sentindo?